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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O dia em que nasci




Realizei o meu parto. Isso mesmo. Eu nasci e me trouxe ao mundo. Foi um pouco difícil e complicado. Não queria falar de detalhes mas é inevitável. O dia em que realizei o meu parto eu estava sentado na cama e não posso dizer que senti a dor porque já sentia há muito tempo mas não incomodava tanto então ia convivendo com ela. 



Porém, naquele dia a dor foi aumentando, aumentando. Eu deitei para ver se passava. Nada. Virei de lado, de bruços, me enrosquei todo e abracei minhas pernas na tentativa de encontrar uma posição confortável. A dor só aumentava. Eu comecei a suar. Suava por todos os poros. Transpirava por lugares que eu desconhecia.  Comecei a gemer.  Eu sentia que já não cabia mais dentro de mim. Precisava fazer qualquer coisa pra me livrar daquela dor. E parece que foi me dando uma loucura.

  Fui até a cozinha me apoiando nos móveis. Eu gemia. A dor já era insuportável. Peguei uma faca afiada, a mais afiada que eu tinha, voltei para o quarto ensandecido, deitei na cama meio de cócoras e sem nenhuma cerimônia, fiz o corte. Não usei nenhum tipo de anestesia. Nem sequer fumei ou bebi antes.  Cortei porque era preciso. E na emergência de nascer fui fazendo força, mais força, mais força e fui saindo lentamente. Primeiro a cabeça, depois o corpo que nem parecia um corpo. Era uma coisa meio gosmenta. O estranho é que eu não me reconheci. Fiquei ali parado perplexo me olhando enquanto eu, do outro lado, tinha uma espécie de visão turva, uma inconsciência da minha existência e num simples instinto de sobrevivência, comecei a chorar.

Fiquei com o cordão umbilical na mão. Era o único elo entre mim e minha mãe. Mas não nasci da minha mãe. Nasci de mim mesmo. Num dia como outro qualquer. Engraçado que sempre imaginei que o dia em que eu nascesse seria um dia especial, que iria acontecer algo diferente, como um sinal divino, algo assim. Achava que um pombo iria entrar pela janela, que o papa iria renunciar ou que iria cair um meteoro na Rússia. Mas nada aconteceu de anormal naquele dia com exceção do fato de eu ter nascido.

Digo anormal porque embora todos soubessem da minha longínqua gestação, ninguém acreditava que eu fosse nascer assim de uma hora para outra, assim num dia como outro qualquer. Eu nasci na minha casa com a minha faca. Cortei o cordão umbilical em pedacinhos e comi para não deixar nenhum vestígio.  Agora eu sou eu. Mas eu quem?

Não tenho nome. Não sei que nome me dar. Não tenho sexo. Cortei o que eu tinha. Pesava. Agora me sinto leve demais. Não sei andar sem o peso entre as pernas. Tropeço em mim mesmo. Não sou Ana nem Pedro nem Maria nem João. Não adianta insistir. Se é pra falar sobre mim, vou logo adiantando, não sei muita coisa. Nasci agora há pouco mas nasci quase em pé igual aos potros e já fui caminhando meio bêbado ou bêbada. No entanto, não paro de levar porrada. Toda hora. Por isso sei que tenho resistência de macho e me orgulho dela! Mas a dor é de parto. Dói muito! Eu nunca tive noção disso. Antes de nascer, tive um filho. Não fui eu que pari. Foi a Claudinha. Ela reclamava e eu sempre achava que era exagero de mulher. Eu alternava com ela em trocar as fraldas e levantar durante a noite quando a criança chorava. 

Um dia, fiquei sozinho com o moleque. Ele chorou e eu fiquei desnorteado. Peguei-o e aconcheguei-o no colo. Eu queria dar meu peito para ele. Eu queria sentir essa emoção de ver o moleque se alimentando do meu amor e de tudo que eu  sou por dentro.

Porque eu tenho muito amor. E esse moleque, Pedrinho, é um pedaço bonito de mim. Mas eu precisava nascer primeiro. Então disse isso a Claudinha e fui embora. Sei que nunca terei a bebida da vida para dar ao Pedrinho. Sempre soube disso. Mas precisava me livrar do excesso. Porém, sempre conviverei com essa ausência de mim mesmo. Porque embora eu tenha nascido, nasci faltando. Mas quando passo na rua percebo que não sou o único. As pessoas cantam seus excessos e bebem suas faltas nos bares.

Então caminho meio trôpego porque vou bebendo a vida. Nasci para a guerra. Mas não para lutar. Sou um arauto, um estrangeiro em terras desconhecidas. E por mais que eu conheça a nova língua, nunca compreenderei suas metáforas porque não sinto o sangue que escorre todo mês acompanhado da melancolia. Minha guerra é única porque não conheço a terra em que terei que entregar minha mensagem. Não tenho mapa, bússola, estratégia nem plano de fuga. Já tive que matar para sobreviver. 

E assim é a guerra mesmo para quem carrega a mensagem da paz. Ela é impiedosa para os vencedores e para os desertores. A vitória é sempre amarga porque há mortes e não traz a felicidade porque vem acompanhada pela dor do parto.

Mas sempre é preciso nascer, morrer e nascer de novo.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os Ratos



Eles sobem pelo muro e entram através da janela  sem cerimônia. São muitos ao mesmo tempo. Vão entrando aos cambulhões. Parecem ter vagas intenções, são desorientados, andam para lá e para cá, sobem e descem numa velocidade atroz. Caminham em minha direção. Vejo-os com seus olhos diáfanos e assustadores. Eles começam a subir em mim. Guincham mostrando uma fome ou uma superioridade. Não sei. Não entendo de ratos. Começam a tomar conta de toda a minha superfície. Eles me mordem e chupam meu sangue. Querem mais de mim. Mas eu não estou preparado. De repente estou tomado de ratos. Eles me mordem! Eles me mordem! Eu tento suportar mas já não aguento. Eles me atacam! Como dói!  Eu me debato para tentar afastá-los mas estão presos em mim. Enquanto me mordem, outros ratos entram pela janela e vêm em minha direção disputar espaço com os que já estão.
E não param de entrar. Eu me debato então com mais força, tento soltá-los com a minha mão. Mas eles não saem. Eles são mais fortes que eu. Me atiro com violência contra a parede, me jogo no chão, rolo, grito. Eles riem e regozijam-se.

Alguém abre a porta. Eu grito: Os ratos! os ratos! os ratos! Aponto a janela, me atiro contra a parede, me jogo no chão e não paro mais de gritar. As pessoas vêm em minha direção. Me seguram e eu grito: Não sou eu! São os ratos! Aponto para a janela e grito desesperadamente: Tirem eles de mim! Eles estão me mordendo! Todos ficam me olhando apavorados e eu percebo que  ninguém compreende. Mas os ratos se assustam com as pessoas e começam a se desprender de mim. Ficam atônitos, desorientados e começam a se esconder pelos cantos da casa. Sei que não vão embora. Sei que nunca vão embora. Olho para mim. Estou cheio de feridas. Coloco meu dedo sobre a ferida do braço esquerdo e aperto bem fundo. Aperto até ter a sensação de que vou perder os sentidos. Então paro. O sangue viscoso começa a sair e eu lambo como o instinto dos animais. Refaço tudo a cada ferida porque quero ultrapassar a superfície.

Me levaram a um especialista de ratos. O doutor Brandão. Um cara estranho. Sempre desconfiei dele. Tinha a sensação de que ele também ia me atacar. Eu  respondia errado às suas perguntas, não queria que ele entendesse os meus ratos. Os meus ratos eram meus, só meus. Ninguém tinha que se intrometer. Ainda mais um fantasma que se chamava Brandão. O olhar vazio e a voz soturna faziam dele um sujeitinho petulante.
Um dia joguei umas verdades em sua cara. Queria afrontá-lo. Mas o cara não demonstrou nenhuma reação. Comecei  a achar que o doutor Brandão desenvolvia alguma patologia e precisava de ajuda.
Comprei uns livros de Freud. Comecei a ler Os três ensaios sobre a sexualidade. Pensei que o doutor Brandão deveria ter um interesse sexual pela sua mãe. Por isso ele era assim tão recalcado a ponto de ter uma verdadeira fixação pelo meu pai. Fiquei imaginando o doutor Brandão comendo a mãe e ela gritando. Mas eu não conhecia a mãe do doutor Brandão então no meu pensamento ela tinha a cara da Soninha e um corpo de velha.

Depois passei a achar que o doutor Brandão era invertido. A fixação pelo meu pai ultrapassava o sintoma do recalcamento. Isso me incomodava. Achava que ele estava passando dos limites. Comer a mãe dele tudo bem mas querer comer o meu pai aí eu não tolero. Quando ele vinha com a história do meu pai, eu mudava de assunto. Começava a inventar uma cena dramática que eu nunca tinha vivido só para tirar o foco dele.

Até que em uma de suas exaustivas sessões ele se cansa de perguntar sobre minha relação com meu pai ou com minha mãe e  me pergunta sobre uma cena da minha infância. Fico um tempo tentando me lembrar e então vejo um rato. Era apenas um. O doutor Brandão diz que eu deveria  ficar atento àquele rato, prestar atenção quando ele aparecia e em que circunstâncias, qual a representatividade dele na minha vida, tentar dialogar com o rato, e eu pensei :
 O caso do doutor Brandão é mesmo  muito grave. Não tem cura. Trata-se possivelmente de psicopatia. Talvez ele tenha sido molestado sexualmente na infância e o trauma tenha lhe causado severos danos na formação de sua personalidade.
Então dei o veredito:
-Doutor Brandão, o caso é grave! Só com internação! Não volto mais aqui!
Dei-lhe as costas e fui embora para que ele percebesse que a situação não tinha argumento. Estava definida.
Três dias depois a equipe da desratização apareceu no meu quarto. Logo pude perceber o profissionalismo deles- todos de uniforme branco o que deveria ser o chefe da equipe, carregava uma maleta. Falei calmamente:
-Os ratos devem estar dormindo. Vi poucos hoje.
Um deles pediu para que eu os acompanhasse. Pensei “eles devem querer que eu explique ao diretor da empresa como os ratos atuam para elaborarem uma estratégia eficiente” Não sei por que mas antes de sair pensei no doutor Brandão.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Último Ano do Papai Noel





O dia 24 de dezembro sempre é muito aguardado por uma criança de 7 anos. Confesso que mesmo sentindo todos os aromas que vinham da cozinha, meu coração disparava e eu só pensava no que viria depois da ceia.
Enquanto mamãe preparava um enorme peru com farofa eu olhava pela janela e pensava que a essa hora papai Noel já havia começado sua viagem. Enquanto mamãe perguntava se o peru estava tenro, eu me perguntava se o velhinho, já cansado e com tantos compromissos, não iria esquecer logo o meu presente.
Escrevi uma carta com um mês de antecedência para dar tempo dele recebê-la e providenciar sem correria  o meu pedido pois a pressa é a inimiga da perfeição, como diz mamãe, que gosta de tudo organizado e nunca esquece nada. Isso foi no ano de 2012, em que as crianças já não pediam mais bolas e carrinhos. A tecnologia invadia o mundo e os sonhos infantis.
A carta dizia assim:

Papai Noel,

Como vai? Espero que tenha tido um bom ano. Sabe? Eu fui bem nas provas finais e não fiquei em recuperação. Fui um bom menino o ano todo. Quase não briguei com meus primos e dei lugar para os velhinhos no ônibus mesmo quando eu estava cansado do futebol e a minha mochila estava pesada.
Eu queria te dar uma sugestão:  você poderia criar uma página na internet onde nós, crianças, escreveríamos para você. Isso ia facilitar, pois os pedidos iam chegar mais rápido e ia evitar que os correios perdessem nossas cartas. Acho que no ano passado minha carta se perdeu, pois eu pedi um smartphone e ganhei um jogo de boliche. Não estou reclamando não, papai Noel, queria até te agradecer mas você sabe, quando a gente sonha com alguma coisa, de repente fica um pouco triste quando o sonho não se realiza. Sei que você já é velhinho e não sabe criar uma página na internet. Então, quando você for lá na casa da vovó , pode pedir pro meu tio Ivan, que ele faz pra você.
Nesse ano, vou pedir de novo um smartphone. Se não for abuso, gostaria que viesse  com o plano de internet, pois meus pais não vão poder pagar um plano para mim e smartphone sem internet é igual aniversário sem bolo. Papai Noel, sei que você tem pressa porque precisa entregar todos os presentes mas nesse ano eu também quero te dar um presente: um desenho que eu fiz pra você na aula de Artes. E também quero te dar um abraço. Então não vá embora sem falar comigo!

Pedrinho.

24/11/12



Passei o mês todo preocupado  pensando se papai Noel tinha recebido mesmo a minha carta. Reli a cópia que guardei todas as noites antes de dormir na dúvida se eu o tinha cumprimentado com educação antes de pedir o meu presente. Aquele mês foi de angústia e  escrevi outras cartas para o bom velhinho contando como havia sido o meu dia e minhas aventuras na escola. Mas não cheguei a pedir que  mamãe as enviasse porque sabia que Papai Noel era muito ocupado e eu não podia tomar tanto tempo dele assim.
Mas o tão esperado dia chegou! A mágica começou na cozinha. Mamãe ia transformando umas fatias de pão dormido numa coisa tão maravilhosa que me fez sentir mesmo muito especial e que aquele era realmente o meu dia. Quando ela colocou a travessa sobre a mesa, meus olhos não queriam acreditar naquela magia  que todos teimavam em  dar um nome. Ela tirou o avental, passou a mão de leve sobre as costas numa expressão de dor. Notei que todo aquele encanto a tinha cansado um pouco. Tanto, que resolveu ir tomar banho sem nem perceber o meu conflito.
Fiquei ali extasiado, perplexo olhando para a travessa, capaz de imaginar o sabor transcendental daquela iguaria. A que estava bem no topo da pirâmide me olhava nua, despida de qualquer vergonha e me convidava a uma noite de luxúria. Nós nos desejávamos, nos queríamos  e nos possuímos num tempo que não pôde ser contado.
E foi exatamente  naquele momento, diante de toda obscenidade do mundo, que perdi  minha inocência. Percebi que ele não vinha. E que mamãe tinha deixado aquela bandeja ali intencionalmente porque precisava de um cúmplice.
Na casa da vovó, enquanto todos riam e comiam felizes, eu sentia o gosto amargo da rabanada. Já não importava mais o presente. Papai Noel se perdeu dentro de mim. Já não nos pertencíamos e eu era apenas um garoto sem fantasia.
Quinze anos depois quando entrei numa loja e fui comprar o meu primeiro carro, um senhor de cabelo grisalho e expressão cansada  me atendeu.  Nos encaramos e sorrimos na eternidade de um minuto. Ciente da escassez da linguagem diante daquele momento abissal, preferi caminhar por  terrenos sólidos. Perguntei:
-Você tem pronta entrega?







quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Carta


Paulo,

Passei vinte  anos te procurando . Escrevi poemas que falavam do amor que tive,
 enviei mensagens marcando desesperados encontros, sussurrei palavras em seus
 ouvidos, gemi de prazer e de dor. Trago no corpo as marcas desse amor: 
são linhas na expressão do meu rosto que revelam o que eu nunca disse porque
 minhas emergências eram outras.
Registrei nossos fortuitos e  desesperados encontros em versos cheios de desejos e metáforas, escrevi cartas terminando nosso relacionamento sempre borrando-as com saudades. Você não sabe o quanto te desejei e te amei porque tudo não passou de um grito dentro do silêncio tortuoso.

Durante esses anos fui colecionando lembranças e tentei registrá-las fora do tempo, do espaço e com personagens  ávidos  de segredos. Senti o seu peso em meu corpo e o peso do infortúnio da verdade e da mentira.
Posso dizer que tive um grande amor porque  ouvi o que os amantes dizem e senti o que  eles sentem- uma dor sempre presente e uma felicidade efêmera.

Paulo, dedico-lhe essas memórias para que eu possa enfim mergulhar em teus olhos de diamante Hope, beber em tua boca salgada, explodir em ondas revoltas e emergir consciente de que o verdadeiro encontro se deu na procura.
Cecília.
06/11/12

A mulher sem face

Stephanie era seu nome. Adotara-o desde que decidira esquecer Ana Maria, a mulher de passado triste.

Durante o dia, ia à praia, à academia, cuidava da pele, do cabelo e dormia bastante para manter sempre uma expressão suave no rosto. À noite trabalhava como prostituta numa casa badalada da cidade. Mas aos Domingos  ela percebia que tinha seu ponto fraco. Aos Domingos Ana Maria assombrava-a no espelho com cabelo opaco, pele cansada, olheiras no rosto. E para ignorar Ana Maria aos Domingos, ela bebia. Passou a beber o dia todo sozinha. Não queria companhia. Não precisava de ninguém que fosse confundi-la com a pessoa que não era. Arrumava-se toda, maquiava-se, colocava o sapato alto, ligava o rádio, bebia e dançava. Dançava e bebia. E para acabar com a alegria da  Ana Maria que teimava em aparecer, arrumou um lugar para trabalhar também aos Domingos . Assim, elas não se viam.

Os anos passaram, Stephanie comprou uma casa, fez viagens internacionais, amou mas refutou seu pretendente. Recusou a proposta de casamento por saber que seu amante desejava a Ana Maria. Era um amor impossível.
Nesse dia, Ana Maria passou a odiá-la e chegou a pensar em tomar as rédeas da situação mas Stephanie trancou-a num porão de onde às vezes ouvia gritos mas ignorava.

Um dia disseram a Stephanie que não precisavam mais de seus serviços. Ela juntou suas coisas, e antes de ir embora, confrontou-se num espelho onde descobriu que já não era mais Stephanie. Ficou espantada: A imagem não tinha face!
Percebeu então, que teria de se reconciliar com Ana Maria e foi correndo para casa mas ao abrir o porão não a encontrou . Aterrorizada, percebeu que trancara Ana Maria por trinta anos sem nem mesmo dar-lhe água e comida.
Stephanie que já não era mais Stephanie e também não era Ana Maria, ficou conhecida como a mulher sem face e até hoje pode ser vista perambulando pelas ruas de Copacabana.











terça-feira, 31 de julho de 2012


Uma Casa ao Avesso


Era  uma casa grande e bonita. Seus habitantes promoveram uma festa que nunca terminou e portanto, ninguém foi embora. Casaram, tiveram filhos e seus filhos tiveram filhos.
A festa já estava na terceira geração quando comecei a sentir umas dores, uma sensação estranha. Fui andando até o banheiro e tudo aconteceu: senti uma dor horrível em todo o meu corpo que ia encolhendo a ao mesmo tempo surgindo pernas, antenas e asas. Fui cambaleando, meio tonto a ainda não tinha noção do que estava acontecendo quando olhei para frente no enorme espelho na parede e só vi uma barata. Fiquei me procurando até que percebi quando eu fazia um movimento, aquele bicho se mexia no espelho. Mexi a pata dianteira. Ela se mexeu. Mexi a traseira. Ela se mexeu. Enchi os pulmões de ar e senti que levitava. Vi a barata voando e quando desejei parar, beijei-a no espelho. Não tinha mais dúvida: eu era ela. Foi quando tive a infeliz ideia de contar aos meus amigos o que aconteceu. Saí correndo do banheiro e fui percebendo que as mulheres afastavam-se de mim com terror e quando cheguei por fim ao meu grupo, meus amigos tentaram me matar, pisavam freneticamente em mim e nem sequer deixavam-me falar, pois eu não queria ficar naquela situação e tentava desesperadamente me comunicar. Mas eles não me deram ouvidos, a menor consideração depois de tantos anos, é só ter um problema e pronto, os amigos viram a cara e ainda pisam em cima.
Devido a tanta falta de compreensão, resolvi me esquivar e procurei um canto para ficar. Sempre quando eles mudavam de ambiente, eu saía, revirava os restos de comida deixados sobre a mesa e dava uns goles numa cerveja qualquer esquecida. Depois me esgueirava de novo no meu buraco. Tudo ia razoavelmente bem mas comecei a sentir uma solidão muito grande. Incompreendido pelos amigos e sem nenhum ser da minha espécie para conversar, comecei a escrever poemas que tratavam da condição da existência quase humana. Numa tarde enquanto eu escrevia um dos meus poemas no sótão da casa, percebi alguma coisa se mover. Quando eu olhei, dei de cara com ela no outro lado da parede. Ela locomovia-se com altivez, parecendo ter consciência de ser a única fêmea de sua espécie nessa casa mas sem dúvida nenhuma, era uma rainha e como tal merecia ser reverenciada. Então, levantei-me e não poupei esforços para ser visto por ela. Caminhei com um certo ar aristocrático e levantei minhas asas a fim de demonstrar minha elegância. Percebi que ela me olhava meio ressabiada. Então alcei voo para me exibir visto que já estava apaixonado por aquele par de olhos amendoados. Dessa vez ela não me ignorou e aproximou-se pedindo desculpas por ter invadido minha casa. Disse que não se preocupasse pois há muito ansiava por companhia. Então ela me contou que morava do outro lado, no jardim mas só saía à noite para buscar comida. Perguntou o que eu fazia quando apareceu. Então falei sobre os meus poemas e prometi que os próximos seriam de amor e que eu iria sussurrá-los todas as noites ao seu ouvido. Ela riu. Foi então que percebi que nessa minha nova existência não sabia o que fazer com uma fêmea bonita. Mas foi ela quem tomou a iniciativa. Chegou bem pertinho de mim. Pude sentir seu perfume que me deixava extremamente excitado. Foi então que ela encostou suavemente suas antenas nas minhas e ficamos muito tempo assim agarradinhos nos antenando. Então ela subiu em cima de mim, beijou-me com sofreguidão. Pude sentir seus pelinhos roçando nos meus e encaixamos nossos corpos ardentemente. Depois adotamos a posição end-to-end e passamos a noite toda nessa maratona amorosa.
O sótão era o meu paraíso, um lugar idílico onde eu ia para me inspirar e escrever minhas poesias. Dois meses passaram desde que nos conhecemos e convidei minha rainha para morar comigo ali onde já era de certa forma, nosso ninho de amor. Disse que sairia do meu buraco e moraria com ela ali. Não precisaríamos fazer nenhuma adaptação visto que não éramos exigentes. Mas ela era uma barata moderna e preferia continuar no seu jardim e vir à noite me visitar.
A vida lá fora também estava se modificando. O que aconteceu comigo bruscamente  estava acontecendo com eles só que de forma bem gradual. A cada dia eles encolhiam um pouquinho e iam-lhes surgindo indícios de novos membros, fatos que nem percebiam. A  rotina de uma vida repleta de prazeres consumistas, a festa interminável e o álcool preenchiam-lhes os espaços e eles viviam felizes. Só eu percebia tudo. Só eu sentia a dor de já ter sido humano e ter visto o meu cérebro diminuir ao  tamanho de uma migalha de pão. As crianças que nasceram este ano já nasceram modificadas geneticamente- com seis patas, antenas, branquinhas feito uma gosma mas com formato de bebê humano. A última mulher que deu à luz, procurou um lugar tranquilo e úmido para depositar seus ovos. Ainda não vimos seus filhotes mas acredito que esses já vão nascer perfeitas baratinhas.

Resolvi escrever estas palavras e deixar registrada essa minha vida de pseudobarata para que cientistas possam estudar esse fenômeno que chamo de desevolução das espécies e que possam descobrir o que está acontecendo com essa casa que já foi tão humana e habitat de vida inteligente.
Bom, encerro aqui essas minhas observações pois tenho poucas horas de vida e estou perdendo minhas forças. No começo do mês eu resolvi dar uma saidinha pela manhã, ação que nunca pratiquei nessa vida de inseto pois, sempre fui prudente desde a minha forma humana. Fui buscar alimento para minha rainha que está grávida quando enfim, o Gustavo conseguiu me acertar com um sapato. Perdi uma pata e minha cabeça. Corri muito mesmo tonto e manco e consegui entrar numa fresta do azulejo. Só saí muitas horas depois. Nasceu outra pata em alguns  dias mas a perda da cabeça é realmente mortal até para uma barata. Desculpem-me se a letra estiver torta ou ilegível. Fiz o máximo que pude. Adeus minha rainha! Há um lugar da casa que recomendo aos meus príncipes e princesas que irão nascer- a biblioteca. Incentivo que a frequentem. Vale a pena correr os riscos!

domingo, 29 de julho de 2012


Laços Eternos

Arrumando o armário Domingo à tarde, encontrei perdida nesse imenso mundo de esquecimento, uma caixa de madeira onde eu guardo fotografias. É difícil arrumar o armário no Domingo porque cada coisa que encontro tem uma história e traz à tona cenas de um filme  à minha cabeça. Fico analisando cada peça retirada desse grande coração que é o meu armário e relembrando fatos. Por isso, da próxima vez que eu for arrumar o armário, vou começar na Segunda-feira para terminar no domingo.
Bom, encontrei a caixinha de madeira. Alguma coisa doeu dentro de mim. Não a abri imediatamente. Sentei na cadeira que fica junto à mesa do computador e fiquei alguns minutos olhando para ela. Eu sabia que lá dentro havia grandes momentos da minha vida. Por isso, estavam lá, na caixinha de madeira dentro do armário. Outras fotos encontravam-se em álbuns nas prateleiras do quarto porém as mais emocionantes, aquelas que iam me fazer rir ou chorar estavam lá, naquela caixa. Acariciei-a como se fosse um amor antigo, senti seu cheiro imponente de madeira velha, coloquei-a em cima da mesa. Eu olhava para ela e sentia uma dor imensa. Eu sabia que a minha avó estava lá, minha vozinha que eu só lembro dela magrinha, com cabelo branquinho, sentada em sua poltrona lendo um grande livro grosso que na época eu não entendia direito mas ela contava a história de alguém que dividiu um mar ao meio e o atravessou. Acho que veio daí, das histórias da vozinha, esse meu gosto por  Edgar Allan Poe, Jorge Luis Borges, Gabriel García Máquez, Julio Cortázar, Murilo Rubião e tantos outros escritores que escrevem sobre o fantástico, o insólito.
Sabia também que mamãe morava naquela caixinha. Ah! Mamãe, sempre tão carinhosa! Sempre tão preocupada! Eu sabia que aquela foto que eu estava no parquinho e mamãe me empurrando no balanço estava lá assim como a do dia da minha formatura em que a mamãe apareceu com a maquiagem toda borrada de tanto chorar. Afinal, foram muitas horas extras como professora para conseguir formar uma médica. Lembro que os meus livros minha mãe comprava em parcelas e as parcelas acabavam junto com o semestre. Então, mamãe só se livrou delas na formatura. Acho que era por isso que ela chorava tanto!
Ah! O vovô também está lá sempre tão garotão de calça jeans e blusão no meu casamento! Tive que colocar a vovó do outro lado da caixa senão ela ia estar desmaiada até hoje vendo ele vestido assim no casamento. Mas ele está lá contando suas piadas infames. E é por isso que os outros  estão rindo.
Jussara, minha babá, comigo no colo, como me lembro dos doces da Jussara e de como ela chamava a gente pra tomar banho dizendo que tinha uma coisa gostosa na cozinha mas antes tinha que tomar banho porque coisa gostosa não aceita desaforo. Jussara morreu velhinha aqui em casa. Não tinha família e foi ficando. Não tinha para onde ir. Já tão fraquinha eu dizia: Jussara, tem uma coisa gostosa lá na cozinha te esperando mas antes tem que tomar banho. Ela me olhava e sorria e eu escutava dos seus olhos : Você é a filha que eu não nasceu de mim mas tive a felicidade de cuidar!


Porco, o cachorro mais engraçado que já vi. Quando brincávamos de pique esconde apostávamos quem o Porco ia encontrar primeiro. O que ninguém sabe até hoje é que eu sempre me escondia com uma guloseima e antes de sair correndo mostrava ao Porco. Como era guloso aquele cachorro! Eu sempre ganhava as apostas e ele, as iguarias. Nem preciso falar que ele não gostava de tomar banho!

De repente, sem eu nem ainda abrir a caixa, as lágrimas começaram a rolar no meu rosto. Desceram sôfregas, insistentes, vieram de um mundo protegido, desabitado e marcaram minha face com terríveis saudades. Foi quando levantei-me da cadeira, peguei uma fita que estava dentro da gaveta, passei em volta da caixa, dei um laço e coloquei-a de volta em seu lugar. Fui colocando as coisas que estavam espalhadas pelo chão desordenadamente de volta no armário. Pedro Henrique entrou e com a inocência dos seus cinco anos perguntou:
-Ué mamãe, você não ia arrumar o armário? Então respondi:
-Arrumar o armário dói.
Assim como eu guardei o mar da vovó, acho que ele um dia vai guardar essa frase numa caixinha de madeira.


Um Carnaval do Diabo

O diabo pediu permissão para ir ao Carnaval do Rio de Janeiro. A permissão foi  concedida porém, com uma condição: o diabo teria de viver seus dias de folia como um ser humano, não poderia utilizar seus poderes sobrenaturais. Caso ele descumprisse o trato, seria impedido de retornar ao inferno e passaria a eternidade no Rio como pobre recebendo salário mínimo.
Visto que iria ser uma provação muito grande o diabo ainda tentou negociar:
- Não dá para ser político? Mas o grande chefe vetou sua reivindicação. Se quiseres ir à Terra, serás como pobre. Se descumprires as regras, ficarás lá a eternidade.
Então o diabo aceitou as condições impostas e foi enviado diretamente para o Rio de Janeiro.
Ao chegar olhou à sua volta e pensou ué, cadê a praia? Ele ficou andando pra lá e pra cá e não viu nenhum vestígio da orla carioca. Só viu uma praça suja e mal cuidada. Ia passando um transeunte , então perguntou: Escuta senhor, onde eu estou?
- Aqui é a Pavuna.
- E como eu faço para chegar ao Centro? Hoje é dia do Cordão do Bola Preta.
- É só o senhor descer essa rua em frente. Lá embaixo pega o metrô. É bem aqui em frente. É a última estação.
O diabo foi descendo e logo sentiu o suor escorrer em seu rosto. Realmente ali não tinha nem aquela brisa marítima que alivia um pouco no verão. Ele foi descendo e pensando “ai  que  calor! aqui está parecendo até o inferno!” Ao chegar na estação do metrô,  ficou perplexo:
- Senhora, essa multidão está indo para o Cordão do Bola Preta?
- Sim. Olha a animação!  Estão até cantando!
- Mas esse trem vai cheio assim?
- O senhor está achando cheio? De segunda a sexta é pior na hora de ir para o trabalho.
O diabo entrou no vagão e ficou tentando se acomodar de uma maneira que ficasse mais confortável. As pessoas cantavam marchinhas e riam, visto que já estavam acostumadas com as vicissitudes da cidade, mas o diabo ia irritado. De vez em quando ele lançava um olhar em torno do vagão e observava a estranha alegria das pessoas em ir num vagão apertadas e no calor, pois o sistema de refrigeração já não dava conta da quantidade de pessoas embarcadas. Foi em uma dessas incursões visuais que o diabo observou a morena de cabelo comprido, short, camiseta do bloco e colar de havaiana. Ela estava animada, sorrindo e logo encontrou o olhar  sedutor do diabo. Este sorriu para ela que lhe retribuiu o sorriso. Ao chegar na estação Cinelândia a maioria das pessoas desembarcou e o diabo aproximou-se da morena:
- Escuta, você sabe onde o bloco fica concentrado? É que eu não sou daqui. Vim para o Carnaval.
- É claro!  Respondeu-lhe solicitamente. Meu nome é Sueli.
- O meu é Pedro. Pedro del  Fuego.
- Me acompanha então Pedro.
Ao chegarem ao bloco, o diabo cantou, dançou, pagou cerveja para a morena e entre uma marchinha e outra, roubava um beijo da Sueli. Depois foram para o Empolga às 9, que só sai à 11h, depois para o Sassaricando e de bloco em bloco,  esta, que já estava encantada com a beleza e o modo sedutor de Pedro, não resistiu quando ele convidou-a para  um programa só a dois à noite.
As três horas de espera na recepção de um motel não tiraram o bom humor do diabo que desde o momento que conheceu Sueli, nada mais parecia importar. E aproveitava a espera para ir esquentado o clima. As mãos pareciam que se multiplicavam à medida que ia passando o tempo.
Ao subir para o quarto, o diabo lembrou-se que tinha um problema: como iria esconder o rabo? Há tanto tempo vivia no inferno e não tinha permissão para sair que esqueceu que o rabo seria a causa de um estranhamento e até poderia assustar Sueli a ponto dela ir embora e não querer mais vê-lo. Então,  ali, diante da bela morena, ele sentiu-se frágil pela primeira vez em sua longa existência. Porém, astuto que era, logo o problema transformou-se em solução. Disse para Sueli que era tímido nessa horas e só se sentiria confortável com as luzes apagadas. O tempo todo imobilizava as mãos dela alegando tratar-se de um fetiche. A morena não se opôs. Concordou, animada com a extravagância do rapaz.
E assim passaram os quatro dias de folia: De bloco em bloco, o diabo e a morena  cantavam a vida e deixavam a marca daquela paixão em confetes e serpentinas. Depois faziam amor como se tivessem condenados a ir para o inferno depois do Carnaval. Na terça-feira um pequeno incidente quase tirou o bom humor do diabo. Ao colocar a mão no bolso para pagar a cerveja , cadê a carteira? Ele percebeu que fora roubado e pensando que poderia em um piscar de olhos mandar o ladrão para o inferno, ele respirou fundo, nervoso, pois teria de cumprir as regras. Sueli percebendo que Pedro transpirava  e tremia perguntou o que acontecera. E ele respondeu: Fui roubado. A moça com a maior tranqüilidade, responde: Ah! Isso é comum!  Logo se vê que você não é do Rio. Tinha documento? Se tiver, vai dar muito trabalho!
-Não. Não tinha documento.
-Quer fazer o registro?
-Não quero perder nem um minuto dessa festa. Quero ficar com você, responde já recomposto.

Na Quarta-Feira de Cinzas, o diabo acordou chateado. Terminara sua permissão para a permanência na Terra. Logo, apareceu um portal à sua frente. Ele só conseguia pensar em sua morena. Não queria deixar Sueli. Então, ignorou o portal e resolveu não voltar.
Contou para Sueli que abandonara o emprego. Queria ficar com ela. Não voltaria para sua terra. A morena comovida com tamanha demonstração de amor, hospedou-o em seu conjugado na Glória. Ele prometeu-lhe o céu.
Meses depois começou sua campanha política. Bonito, inteligente e articulado, não demorou para que Pedro del Fuego  liderasse as pesquisas com uma campanha forte em que prometia entre outras coisas, vale ar-condicionado para todas as comunidades carentes e pacificadas durante todo o verão carioca. Ocupada a cadeira na Câmara dos Deputados, Sueli passou a usar jóias e grifes e a única preocupação do diabo passou a ser - esconder o rabo.


terça-feira, 24 de julho de 2012


Tela  em branco

A minha tela está na minha frente. Levei um ano para concluí-la. É complexa e absolutamente branca. Essa tela exprime todo o meu amor  e toda minha maldade. Nela habita o que eu conheço e o que não conheço de mim. Por isso  é tão misteriosamente branca.
Essa tela retrata a dor, o conflito das cores. Afinal, que cor retrata o eu? Se eu não estivesse pintando diria que o azul mas quando pinto surge um eu que desconheço, um eu que me confronta diante do mundo.
Por que não colorido? Porque iriam faltar cores para pintar tudo que sinto. Porque não existem todas as tonalidades para expressar minha alma e porque  eu não meço as cores, pois seria arbitrário. O quanto de mim é azul? O quanto de mim é amarelo? O quanto de mim é verde?  Sei que não encontrarei respostas. Por isso não faço perguntas. Apenas pinto.
 Pintar uma tela em branco é não pintar? Olhe para a tela! Ali estão todos os amores que tive! Cada início e cada final. E por que não os meios? Os inícios  cheios de jantares, cinemas, teatros, vinhos, esperanças. O olhar morno do Paulo, o sorriso brejeiro, suas mãos que tateavam meu corpo tentando descobrir meus mistérios, seus abraços quentes, suas palavras doces, sua respiração, seu cheiro, seu peso, sua voz abafada, entrecortada, o falo.
O falo no centro da tela me desafia. Ele mostra  a completude da natureza humana, a consciência  do que  estou sendo porque ainda não sou. Me falta.
O Silêncio.
O silêncio está na tela em branco. O silêncio anuncia o fim. A dor. A dor de todas as coisas. A dor que eu senti quando Paulo disse adeus. Quantas cores têm o adeus? Não sei. Ainda não sei sentir o adeus. O adeus é dolorosamente branco. É a mistura e a ausência de cores. É o infinito de tons, é o vazio que transborda. É um ponto indeterminado porque  dói imensuravelmente.
Conheci Carlos numa galeria de arte. No começo sabia que não poderia amá-lo pois estava repleta do Paulo. Carlos era bonito, espirituoso, me fazia rir, gostava de música e cinema. Andávamos de bicicleta aos domingos pela manhã. Paulo foi se diluindo no tempo e no espaço. Carlos foi adquirindo cores mais vibrantes. Discutíamos política, conflitos familiares e a religião que não tínhamos. Passei a amá-lo com algumas tonalidades e me sentia bem ao seu lado até que alguém disse que ele tinha outra. Terminei a relação com um ponto de interrogação.
 Curiosamente chorei. Derramei umas nuances na tela. Acho que amei o Carlos mais do que tinha consciência ou queria admitir. E enxergo a outra ali na tela rindo de mim com suas dez bocas e uma postura de superioridade. E sinto que fui a outra, eu fui a sua mentira, o seu fantasma, a indecente vaidade. Fui o escárnio, a patética realidade, a máscara, a sombra, a imoralidade. Não sei dizer o que senti. Mas pintei nessa tela a dor, o assombro, a vergonha, a humilhação, o desprezo, a raiva.
Na tela  há muita felicidade! Não há nada mais doce e angelical como o sorriso da mamãe. Veja como é singelo!
Há também o amor pelos objetos. Como amo meu abajour de elefantinho e a saia desbotada que não cabe mais em mim! Não sei por que mas amo.  Não me desfaço do que amo e não preciso explicar nem teorizar. Apenas pinto.
E na contemporaneidade da minha vida surgiu um amor que já nasceu imortal. Um amor que não obedece a nenhuma regra visto que é regido unicamente pelas leis do coração. De uma relação morna e quase insignificante com Vicente ele deslizou quente pelas minhas entranhas e em meu colo cantou a paz que eu tanto desejava. Seus olhos vibram cores que eu jamais pensei que exisstissem e sinto que tudo é pequeno diante da natureza reinante de um recém-nascido.
E é por isso que pinto essa tela em branco-porque não tenho cores nem palavras para exprimir todo o amor que sinto.

domingo, 17 de junho de 2012


Os Fantasmas de Soninha


Quando eu comecei a namorar Soninha ela era espirituosa. Gostávamos de viajar, fazer trilhas, saíamos  para dançar e gostávamos das mesmas bandas de rock . Éramos um casal alegre e nos entendíamos muito bem. A única coisa que me deixava chateado era a insistência dela em que eu participasse dos almoços nos Domingos na casa da tia Valquíria. Eu passava a semana toda gravando meus seriados preferidos para assistir aos Domingos e aí vinha a Soninha dizendo que eu tinha que ir ao almoço da família porque iam perguntar por mim e era educado que eu fosse. Eu tentava arrumar desculpas, dizia que tinha planilhas e relatórios da empresa para terminar mas a Soninha ficava emburrada e eu acabava cedendo.
Já naquela época notava uma certa atração da Soninha pelo espelhinho que ficava à frente do seu banco. Toda vez que a Soninha entrava no carro abaixava o espelho. Eu perguntava se ela ia passar alguma maquiagem e ela dizia que não mas que gostava que o espelho ficasse abaixado para que pudesse ajeitar o seu cabelo. O fato é que Soninha não só passava o trajeto todo mexendo o cabelo como também conversava comigo olhando para o espelho e muitas vezes até me dava respostas evasivas de tão concentrada que estava na menina do espelho.
No início eu achava até um pouco engraçado  esse estranho hábito da Soninha até que uma vez perdi  a paciência quando fui fazer uma ultrapassagem e percebi que o meu retrovisor lateral que ficava no lado da Soninha não estava no meu campo de visão. Concluí depois de quase bater  que o espelho estava  no campo da visão da Soninha e ela tinha então dois ângulos para se olhar no carro. Naquele dia eu briguei feio com ela. Soninha foi chorando até  em casa e nem me despedi quando ela abriu a porta e disse um tchau meio cabisbaixa. Dei partida  e fui embora.
No dia seguinte acordei meio mal. Achei que fui duro demais com a Soninha. Passei numa loja, comprei um porta-joias  do tipo que tem um espelho dentro e fui levá-lo para ela. Conversamos e ela prometeu que jamais mexeria novamente no retrovisor lateral e acabamos a noite muito bem como sempre acabávamos.
O tempo foi passando. Eu acabei incorporando à minha rotina os almoços na casa da tia Valquíria e a estranha mania de Soninha de falar comigo olhando para o espelho quando estava no carro. Resolvemos casar. Escolhemos o apartamento, mobiliamos, fizemos uma grande festa e uma  bela viagem de lua de mel.
Ao retornar da viagem e entrar a primeira vez em nosso apartamento fiquei espantado. Três das quatro paredes  da sala e do quarto estavam revestidas com espelhos, ou seja, eram paredes de espelhos restando apenas a que tinha janela.  Apesar de achar um incômodo não falei nada para não acabar com o clima de recém-casados que nos encontrávamos. Mas o fato é que desde o primeiro dia de uma vida em comum, a Soninha nunca olhou para mim. Toda vez que eu perguntava alguma coisa para ela, respondia olhando para uma das três Soninhas que estavam à sua frente e quando ia fazer uma refeição à mesa sentava na cabeceira para poder comer olhando para as três ao mesmo tempo.
Em um ano de casamento, nossa convivência a seis estava ficando insuportável. Eu sempre via três Soninhas dizendo que eu tinha que ir ao banco, ao mercado, levar o lixo para a lixeira, não esquecer de pagar as contas e ela bom, ela não me via, só enxergava as três Soninhas. De qualquer forma, minhas três caras de amargura sempre me deixavam aborrecido.
Passou a ser difícil também tirar a Soninha de casa, pois ela sempre inventava um subterfúgio para poder ficar com as outras três.
Um dia insisti muito para que Soninha saísse comigo e às margens da lagoa Rodrigo de Freitas falei todo o meu descontentamento. Ela disse que eu era injusto, que gastou um dinheirão naquela decoração, que só utilizara um artifício para aumentar o ambiente visto que era um apartamento pequeno e chorou.
Nos dias que seguiram, Soninha não saiu do quarto.  Maria levava suas refeições à cama . Como já fazia quatro dias que Soninha não saía da cama, fui ao quarto, segurei sua mão delicadamente e tentei animá-la dizendo que o que falei na lagoa não era tão importante assim. Mas Soninha virou-se para o outro lado com a intenção de demonstrar-me que não estava interessada.
Na mesma semana fiquei sabendo que um parque se instalara no centro da cidade. Era um parque sem tecnologia, do tipo que eu ia na minha infância- com carrossel, bate-bate, roda gigante, algodão doce, maçã do amor, mulher gorila e a Casa dos Espelhos.
Então, no Domingo consegui depois de muito custo, convencer a Soninha a ir comigo ao parque sem lhe contar sobre a atração principal. Ao chegar em frente a Casa dos Espelhos vi novamente o brilho nos olhos dela. Entrei com ela a fim de testemunhar sua alegria mas fui vendo os olhos de Soninha se tomarem de espanto a cada espelho que ela passava. Até que vi o verdadeiro terror instaurado em sua face. Ela não disse nada e eu também não perguntei.
Não sei que fantasmas Soninha viu. Só sei que quando cheguei em casa na Segunda-feira, nas paredes havia telas pintadas à óleo e ela olhou para mim.


Conto escrito para o clube da leitura